|

Aznar reforça necessidade de o Brasil definir marco regulatório
Líder espanhol defende que OMC determine o comércio multilateral. Em meio a elogios às "políticas macroeconômicas e estruturantes" que estão sendo implementadas no Brasil pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e na defesa dos interesses de quem é o segundo investidor estrangeiro no País, o chefe de governo da Espanha, José María Aznar, reforçou ontem, em São Paulo, a necessidade de o Brasil implementar regras claras e marcos regulatórios definidos para que os espanhóis possam ampliar os negócios por aqui.
"Os investimentos espanhóis acumulados no Brasil são superiores a US$ 25 bilhões e para que isso possa não apenas se manter como se estender é fundamental o estabelecimento de marcos que permitam às empresas de qualquer tamanho entrar e competir nesse mercado. O que essas empresas querem são regras claras e asseguradamente cumpridas", afirmou.
"Populismo não é solução"
Durante o "Fórum Brasil-União Européia: Novas Etapas, Novas Oportunidades, Novas Políticas Sociais", organizado pela Fundación Euroamérica, Aznar lembrou das inseguranças do mundo em relação aos rumos do Brasil à época das eleições presidenciais e do risco-país que à época chegou aos 2.400 pontos.
"Agora o risco está no patamar de 600 pontos, o que é sinal de muita credibilidade. E as reformas que o governo Lula colocou em marcha são fundamentais porque entendemos que podem levar à reativação da economia brasileira de forma continuada e com a crescente integração aos mercados internacionais", disse Aznar.
Especificamente sobre a condução da política macroeconômica brasileira, o primeiro-ministro espanhol salientou que o governo deixou de lado "a prática ideológica" para adotar práticas responsáveis e prudentes, "segundo as normas corretas para traçar um bom caminho ao País".
Segundo o chefe do governo espanhol, os países que apostaram em políticas de substituição de importações, na nacionalização da indústria ou na emissão de moeda para resolver seus problemas "se deram mal".
"O populismo não é a solução dos problemas da América Latina e sim o causador de problemas, e o presidente Lula também acredita nisso", observou o líder espanhol. José María Aznar destacou que Brasil e Espanha estão trabalhando juntos para a implementação de um acordo estratégico que, disse, possa significar um salto qualitativo das relações bilaterais e também no âmbito multilateral entre os dois países.
O convênio, assinado anteontem em Brasília, prevê a criação de grupos de trabalho temáticos que vão tratar de questões relativas a investimentos, marco regulatório e questões comerciais.
"Eu e o presidente Lula achamos que podemos aprofundar nossos interesses, visto que com a integração daremos um salto qualitativo em todos os aspectos e poderemos elevar nossas relações ao nível mais elevado que possa haver", disse o chefe do governo espanhol.
Em tom de brincadeira, Aznar questionou em seguida: como é que um conservador (ele) e um esquerdista (Lula) poderiam levar adiante essa empreitada?
"Talvez a resposta esteja no centro, quando as mentes trabalham com realismo e focam com realismo os problemas as serem resolvidos. Isso significa que os governos não são feitos para sonhar, mas para tomar decisões e melhorar a vida de seus países."
Conselho de Segurança Ao apontar como "absolutamente legítimo e justo" que o Brasil queira um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) - cadeira a qual a Espanha também se candidata, como mais um representante europeu -, Aznar alertou para as dificuldades do pleito.
"Esse é um processo difícil e lento, assim como difícil e lento será qualquer processo de reformulação da ONU", disse, ao reforçar o apoio da Espanha à confirmação do Brasil como membro rotativo no Conselho de Segurança para os anos de 2004 e 2005.
Do ponto de vista multilateral, Aznar disse que o fracasso da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Cancún, no México, não é bom para ninguém, mas é pior ainda para os países em desenvolvimento. "Acho que deve haver um esforço para a retomada das negociações durante a reunião que ocorrerá no primeiro semestre do ano que vem", disse o chefe do governo da Espanha.
"Sou partidário de que as regras da OMC determinem o comércio multilateral e entendo que devemos continuar avançando para a formação de regras claras do comércio internacional", disse o chefe do governo espanhol.
Sobre as negociações entre União Européia (UE) e Mercosul, o dirigente espanhol afirmou ser natural que haja dificuldades, "mas há vontade política por parte da Espanha para trabalhar na direção desses entendimentos".
kicker: Para Aznar, risco-país em torno de 600 pontos é sinalde "muita credibilidade".
Gazeta Mercantil Nacional - Caderno A4 - Eva Rodrigues São Paulo, 31 de Outubro de 2003
|