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"Negociarei com toda a força do mundo", diz Lula
Presidente desconfia da boa vontade dos países ricos em acabar com protecionismo
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que não acredita na boa vontade dos países desenvolvidos para acabar com o protecionismo econômico e para ajudar a resolver os problemas da fome no Terceiro Mundo. Só com muita negociação, afirmou ontem no Fórum Empresarial União Européia- Mercosul, será possível resolver essa situação. Ele disse que vai negociar "com toda a força do mundo" nas relações comerciais para obter acordos justos e em que todos saiam ganhando.
"Eu não trabalho nunca com a lógica de que se eu mandar meu ministro falar com nosso amigo (Jacques) Chirac (presidente da França), ele chegue lá dizendo que no Brasil tem muita criança com fome, e alguém vai ficar preocupado e falar então vamos baixar o preço de tudo aqui para vocês poderem exportar. Eu acredito em Deus, mas não acredito em milagres desse ponto de vista. Acredito em outros milagres. Eu não trabalho nunca com a idéia de que o presidente Chirac, ou o presidente (americano George W.) Bush, para ajudar os pobres da América do Sul, vão perder suas eleições nos seus países e perder os votos dos agricultores", disse Lula, em discurso a empresários do Mercosul e da União Européia.
"Como eu sou um ser político, eu não trabalho com essa hipótese. Eu trabalho com a hipótese de que precisamos de muita conversa, precisamos de muito argumento e precisamos de força política para fazer com que eles compreendam que é possível também convencer os seus pares e fazer um acordo razoável com os países em desenvolvimento."
Segundo Lula, os países em desenvolvimento só têm a perder se forem subservientes nas negociações comerciais.
Agricultura - O presidente disse que as negociações que o Mercosul vem desenvolvendo com a União Européia "têm igual importância e apresentam dificuldades e riscos análogos às outras grandes negociações", na Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e na Organização Mundial de Comércio (OMC). "A UE é hoje o único interlocutor comercial do Mercosul que dispõe de ofertas em todas as áreas relevantes, sinalizando, sobretudo, disposição negociadora."
Lula cobrou, entretanto, um compromisso maior dos europeus na área agrícola. "Para que tenhamos um bom acordo, no entanto, é necessário que a UE apresente um pacote de ofertas na área agrícola que habilite o Mercosul a fazer uma contraproposta significativa de acesso ao seu mercado." E repetiu a crítica feita pelos representantes brasileiros da agricultura no encontro: "Vale recordar que a maioria dos produtos agrícolas de interesse do Mercosul está ainda na categoria de não ofertados no processo negociador." Segundo Lula, a agricultura não poderá continuar a ser tratada como um ponto a mais na agenda da negociação. "Deve ser um dos pontos centrais do nosso trabalho."
O presidente disse que os problemas comerciais são urgentes: "Não podemos aceitar que a dificuldade nas negociações multilaterais na OMC retarde nossa negociação birregional. O fato de termos dificuldades na OMC não significa que não tenhamos história, cultura e disposição política de irmos fazendo o acordo birregional." O presidente brasileiro elogiou a atitude pragmática do primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar, que trouxe ao Brasil uma proposta concreta de proteção de investimentos. "Fico pessoalmente feliz com a visita de Aznar, porque ele nos trouxe hoje uma proposta de acordo numa relação estratégica entre o Brasil e Espanha", disse Lula, acrescentando que prometeu ao líder espanhol montar uma comissão interministerial para "analisar a proposta na sua plenitude, que é muito densa e muito importante". O presidente considerou possível os dois países assinarem protocolo de intenção no dia 15, em Santa Cruz de la Sierra, no Encontro Ibero-Americano.
Priscilla Murphy
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