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Oposição vai obstruir aprovação da entrada da Venezuela no Mercosul

Os principais partidos de oposição, Democratas e PSDB, decidiram impedir a votação, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, do termo de adesão da Venezuela no Mercosul, enquanto o presidente daquele país, Hugo Chávez, não fizer uma "retratação" pelo que consideram agressão ao Congresso brasileiro. Líderes dos dois partidos criticaram as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia sobre o assunto. 
"O PSDB não aceita a permanência da Venezuela sob nenhuma forma, a menos que, formal e cabalmente, o presidente Chávez se retrate pelas ofensas praticadas contra o Congresso brasileiro, contra o Senado da República deste país", disse o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (AM), da tribuna. O termo de adesão está na comissão do Mercosul, na Câmara dos Deputados, e precisa ser votado nas duas Casas. 
Na quarta-feira passada, o plenário do Senado aprovou requerimento do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) pedindo que o governo venezuelano reconsiderasse a decisão de não renovar a licença de funcionamento da emissora de televisão RCTV. A reação de Chávez foi chamar o Senado brasileiro de "papagaio" do governo americano. 
O líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), lembrou que um dos pilares para a participação de um país da América do Sul no Mercosul é a prática da democracia em sua essência. "Agora se fala claramente na participação do parceiro do Brasil no Mercosul. Desse jeito? Sem liberdade de imprensa? Sem oposição? Com um Congresso agindo não se sabe como? ", perguntou . 
Os líderes lembraram que , quando houve ameaça de golpe no Paraguai, houve reação do Brasil, da Argentina e do Uruguai, que ameaçaram expulsar o país do Mercosul por causa da cláusula democrática. "Foi talvez esse o maior antídoto para o golpe", disse Virgílio. O tucano foi duro com Chávez. "A vontade que ele tem de se perpetuar no poder é proporcionar à incompetência que ele tem para perceber o mundo que o envolve. Seria um aprendiz de ditadorzinho qualquer, se não tivesse a sustentá-lo algo que criminosamente ele usa, a única riqueza à mão do povo venezuelano". 
Agripino criticou também o fato de Marco Aurélio Garcia - "alter ego" de Lula no que diz respeito à política externa, segundo ele -, ter dito que não há cerceamento à imprensa na Venezuela. "Só o Marco Aurélio não enxerga as imagens que o mundo inteiro está vendo?", perguntou. 
Os dois líderes citaram vários casos de requerimentos aprovados pela Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado com críticas e condenações a atos de outros países e que nunca houve reação contrária. "Até Cuba, que nem democrático é, aceitou um voto de censura", disse Agripino. 
A Executiva do PT divulgou uma nota ontem, redigida pela Secretaria de Assuntos Internacionais, defendendo a decisão do presidente da Venezuela de fechar a emissora. O documento, redigido pelo secretário Valter Pomar, diz que a Venezuela "é um país democrático, com um presidente eleito pelo voto por intermédio de eleições livres". Para o secretário de relações internacionais do PT, é um erro classificar o governo venezuelano de anti-democrático. "Eles são uma concessão pública, devem, por isso, ter limites de ação bastante claros", justificou. 
O petista não quis entrar no mérito sobre o conflito de Chávez com o Congresso . Disse que, se ele fosse o presidente venezuelano, não se daria ao trabalho de responder às críticas do legislativo brasileiro. O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), ao contrário de Pomar, criticou Chávez pelos ataques ao Congresso. Para o ministro da coordenação política, Walfrido dos Mares Guia, ao fechar a RCTV, Chávez tirou de seu país as características de país "moderno e desenvolvido". 
O governo brasileiro espera ainda uma retratação de Hugo Chávez pelos insultos do venezuelano ao Congresso brasileiro. Chávez, alvo de nota e declarações de repúdio feitas pelo Itamaraty, falou por telefone com o embaixador do Brasil na Venezuela, João Carlos Souza Gomes, em "tom conciliatório", segundo Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores. O venezuelano não voltou atrás e tentou justificar os ataques ao Congresso brasileiro, o que desagradou o governo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu evitar o tema, durante sua visita à Índia.