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Valor Econômico Capital aberto

Ressaca dos anos 70 não deve se repetir

Catherine Vieira e Vanessa Adachi Do Rio e de São Paulo

Contam os veteranos do mercado de capitais brasileiro que, no fim da década de 60, a euforia com as aberturas de capitais e o mercado de ações era tanta que um dia alguém espalhou o boato sobre o lançamento de uma tal Merposa. "Inventou-se isso para pregar uma peça nos novatos, que ficaram logo animados e já queriam saber como comprar o papel", lembra o analista técnico Jayme Ghitnick, que há quase 50 anos acompanha o mercado. A tal Merposa era a sigla para M... em pó S.A. e sintetizava o cenário de um período em que, turbinadas por subsídios tributários, as ofertas públicas de ações se multiplicavam. E os investidores, inebriados com altas sucessivas da bolsa, passaram a comprar tudo que chegava ao mercado, sem muito critério.Quando a maré virou, o susto foi grande. Há casos que ficaram históricos, como o da Cromagem Tarumã e da companhia de águas de Petrópolis. "Esses são apenas alguns exemplos de companhias que não tinham real intenção nem estrutura para ser abertas e apenas entraram numa onda de euforia, o que acabou gerando também muitas perdas para os investidores que compraram esses papéis", lembra Ghitinick. "O mercado passou por um período tão ruim depois da euforia (que durou até 1971), que há investidores que investiram em blue chip da época e que podem não ter recuperado o montante total até hoje", avalia Ghitnick.Na opinião dele, o mercado pode estar vivendo uma nova onda de euforia de lançamentos de ações e diz que é preciso ter cuidado com o efeito-bolha. O que impressiona muito são os preços. Antigamente, diz, os lançamentos saíam com um múltiplo de preço/lucro (PL) de cerca de 4. Nesta leva mais recente o P/L chegou a superar 30. "É absurdo", diz ele.A rebordosa da euforia das aberturas de capital do início da década de 70 acabou tendo muitas conseqüências desastrosas, mas como ocorre em muitas crises, deixou algum legado positivo. Na época, os lançamentos de ações - bons tempos aqueles em que ainda nem se falava em 'ai-pi-ou' - ainda não eram regulados por uma autarquia criada especialmente para isso. Mas, depois dos problemas de empresas que não vingaram e da ressaca de investidores que perderam dinheiro, começou a se discutir a necessidade de fazer a Lei das Sociedades Anônimas e de criar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o que acabou se materializando em 1976. Foi quando o mercado de capitais deixou de ser regulado por uma diretoria do Banco Central e passou a ser responsabilidade da CVM.O primeiro presidente da autarquia, Roberto Teixeira da Costa, é um dos mais procurados consultores do mercado de capitais até hoje e diz que está um pouco preocupado com a recente onda de euforia, apesar de ressaltar que agora há diferenças fundamentais em relação ao passado. "Estamos numa fase muito diferente, mais amadurecida e há o Novo Mercado, que dá uma série de direitos diferenciados e promove alinhamento entre investidores e empresa. Há também uma classe de investidores de longo prazo, que são os institucionais, o que dá ao mercado uma certa sustentação maior", explica Teixeira da Costa, que está escrevendo um livro sobre o mercado de capitais brasileiro.Ary Oswaldo Mattos Filho, outro ex-presidente da CVM, também enxerga o mercado mais amadurecido e não acredita em uma repetição da década de 70. "Naquela época, a bolsa era muito concentrada em pouquíssimos papéis e isso mudou." Além disso, diz ele, hoje muitas empresas têm gestão profissionalizada, o que favorece uma ida ao mercado "mais consciente". "Mas não são regras melhores que vão atenuar o prejuízo do investidor se o mercado inverter."Para o professor do Coppead/UFRJ, Ricardo Leal, um dos maiores especialistas em abertura de capital do meio acadêmico, o processo de aprendizado se dá inevitavelmente em ciclos de euforia e rebordosa. "Isso tem acontecido ao longo do tempo, depois do período da década de 70, tivemos outra pequena onda de euforia após o Plano Cruzado, com várias aberturas de capital na década de 80 e início de 90. Naquele momento, os problemas já foram menores e diferentes do período anterior, mas também ocorreram", diz Leal.